sexta-feira, 18 de junho de 2010

Os Verdes Campos que nos limitam...


Existe um clip no youtube no qual Agnaldo Timóteo canta "Os Verdes Campos...". Esse vídeo, além de ser uma bonita homenagem ao cantor e à cidade de Caratinga, conta também com a participação de outro personagem ilustre de Caratinga, o cartunista, escritor e etc Ziraldo.
Pois bem, nesse vídeo, dentre outras coisas interessantes, o que me chama mesmo a atenção é uma passagem onde Ziraldo fala sobre a mania de grandeza que nós temos em Caratinga, essa mania de sonhar alto... E eu, como boa caratinguense e fã do Ziraldo que sou, não posso deixar de concordar com suas palavras. E por quê não? Ziraldo falou pouco, mas falou tudo.
Nós caratinguenses somos mesmo sonhadores, sonhamos grande e queremos voar alto!E isso incomoda muita gente, caratinguenses ou não.
Também não são todos os caratinguenses, assim como várias outras pessoas de outros lugares pelos quais venho passando, que trazem junto com seus sonhos e manias de grandeza o principal ingrediente que torna a vida válida e significativa, A CORAGEM!
Sim, muitos de nós somos sonhadores, queremos mais do que temos e, no caso de Caratinga, talvez esse seja um fenômeno desencadeado por termos nossa visão um pouco limitada pelas também enormes montanhas que cercam a cidade por todos os lados e por ansiarmos ultrapassar esses limites, descobrir o que há por detrás deles, até onde poderemos chegar se os ultrapassarmos.
Essas montanhas existem diante de nossos olhos sim, mas para muitos, infelizmente, elas não são somente montes de terra e vegetação, existindo também no interior das pessoas, privando-as de novas possibilidades, de novos sentidos para a vida, das realizações de grandiosos sonhos.
Só o sonho por si não basta, e é preciso um elemento fundamental para torná-lo realidade, CORAGEM. Para muitos sonhadores, falta a CORAGEM, a coragem de se atirar ao novo e ao desconhecido em busca de realizações; a coragem de não se limitar ao que nos foi imposto pela criação tradicional ou pela hipocrisia da sociedade também limitada ou por uma profissão que por conta de uma formação medíocre, acredita-se já estar estabilizada; coragem de nos tornarmos livres de vez das amarras e das cascas de nossa existência e renascer a cada dia; a coragem de insistir; a coragem de encarar os equívocos, replanejar e recomeçar; a coragem de enfrentar ou de ignorar os risos atravessados de despeito travestido de deboche, despeito esse, da coragem que alguns de nós temos e que muitos não tem nem coragem de ter.
Eu poderia continuar essa lista de falta de CORAGEM aqui, mas tomaria o dia todo e não tenho tanto tempo disponível assim, porque estou cuidando de dar asas aos meus grandiosos sonhos.
Nos lugares que tenho percorrido para tornar realidade esses sonhos, me deparo a todo momento com milhares de pessoas com características exatamente iguais às dos caratinguenses sem coragem, mas com uma diferença que torna a situação ainda mais triste, a esses não-caratinguenses sem coragem, faltam também os sonhos, o que torna suas vidas ainda mais vazias.
Gosto de Caratinga, foi a cidade onde nasci e a levarei comigo no coração por onde quer que eu vá. Foi lá que cresci, fui educada, que aprendi a amar a vida, a amar as pessoas, conheci meus melhores amigos, comecei a crescer e sobretudo, comecei a sonhar...
Mas Dona Dora, a professora de História, já dizia: "Caratinga é um lugar para a gente se aposentar. Vão, construam seus caminhos e se um dia acharem que já está na hora de descansar, voltem para cá". Essas palavras nunca saíram da minha cabeça. E é assim que quero que seja, no dia que estiver na hora de descansar, mesmo que esse descanso seja aquele, o "eterno", quero que seja em Caratinga. Só assim quero voltar a morar lá.
Espero que este post não ofenda algumas pessoas que, apesar das montanhas, realizam seus sonhos em Caratinga e alguns não-caratinguenses que sabem sonhar e lutar, mas espero que faça pensar aqueles que deixam seus sonhos serem somente sonhos por falta de CORAGEM ou aqueles que não sabem nem o que é sonhar..
E pra quem quiser ouvir o Ziraldo falando, o endereço do vídeo é esse:
http://www.youtube.com/watch?v=ZZXu-BoY8Mc

segunda-feira, 7 de junho de 2010


"O dia mente a cor da noite
E o diamante a cor dos olhos
Os olhos mentem dia e noite a dor da gente"

Enquanto houver você do outro lado
Aqui do outro eu consigo me orientar
A cena repete a cena se inverte
Enchendo a minh'alma d'aquilo que outrora eu deixei de acreditar

Tua palavra, tua história
Tua verdade fazendo escola
E tua ausência fazendo silêncio em todo lugar


Metade de mim
Agora é assim
De um lado a poesia, o verbo, a saudade
Do outro a luta, a força e a coragem pra chegar no fim
E o fim é belo incerto... depende de como você vê
O novo, o credo, a fé que você deposita em você e só

Só enquanto eu respirar
Vou me lembrar de você
Só enquanto eu respirar


(O Anjo Mais Velho - O Teatro Mágico)

domingo, 23 de maio de 2010

Ô povo doido!


Ai ai ai ui ui... Tô voltando do supermercado, hoje é um domingo daqueles, chato e tedioso.
Me levantei tarde da cama pra ver se o dia desinteressante passava mais rápido e o gato perguntou o que teríamos para o almoço. Eu com cara de quem comeu e não gostou respondi que não havia nada e que teríamos que sair para comprar. Ótimo! Saímos então.
Parecia tudo muito normal, normal até demais pra mim. Foi aí que uma coisa engraçada, revoltante, inacreditável aconteceu! Inacreditável para mim, que me recuso a acreditar na realidade cruel, obscena e fuleira da vida até que esta própria, a vida, se encarrega de esfregar na minha cara a sua realidade!

(kkkkkkkkkkk, tenho que dar uma risada da Naza pra não chorar! Falando nisso, olha ela aí embaixo)

Pois bem, vejam só do que eu estou falando, pode parecer até bobagem para muitos, mas alguns, com um mínimo de sensatez poderão observar que este é um dos motivos que ocasionam o caos do nosso "Planeta Água (Poluída)":


Lá estava eu com uma cestinha com alguns produtinhos que dava pra comprar com o ínfimo real que sobrou este mês. O Tchuco perdido pelo supermercado procurando outros produtinhos para suprir nossas necessidades básicas, quando, de repente, me deparo com uma conhecida que já não via haviam uns dois anos.
Vi que a moça estava meio inchadinha e o que pensei foi "ou a gata está prenha ou acabou de parir".
Pois bem, quem apostou na segunda opção, acertou! Ela havia acabado de parir mesmo.
Até aí tudo bem, não me causou grandes emoções ou comoções, ou seja, ainda não havia conseguido me tirar da inércia do domingo, e continuaria assim não fosse pelo momento em que a mulher disparou a falar e a justificar o "por que" de ter parido a pobre alminha que já se encontrava uns 5 metros à nossa frente, no colo da titia dela.

O que se segue é a reprodução da fala ocorrida entre a parideira e eu, quem não tiver maturidade psicológica, social ou emocional suficientes para ler e compreender o sentido real ou gosta de falsas demagogias sobre a maternidade ou a paternidade, aconselho parar por aqui mesmo.

Pois bem, onde é que eu estava mesmo? Ah sim! Na conversa escandalosa com a parideira. Lá vai:
Eu: Olá, quanto tempo! E aí? O que anda fazendo da vida? (um abraço pouco caloroso aqui)
Parideira: Pois é minha "fia"! Tô toda enrolada, porque acabei de ter nenem, tá fazendo um mês. (Baaaahhhhh! Como se eu não tivesse percebido!)
Eu: Nossa! Vocês tem ânimo mesmo! (Sem emoções até então)
Parideira: Uai minha fia! Eu tinha que arrumar né, precisava dar um jeito de ligar as trompas! (Nessa hora eu me compadeci um pouco da moça e pensei que ela estivesse já no final de seu relógio biológico, ou que tivesse algum problema de saúde que a impedisse que ficar arrumando filhos e resolveu arrumar um logo de uma vez para fechar a fabriqueta e não ter ficar correndo riscos).
Continuando:
Eu: Ah, é?
Parideira: Uai! Ligar é muito caro! E onde é que eu ia arrumar mil e quinhentos "conto" pra poder fazer uma ligadura dessas? Só mesmo arrumando mais filhos, já tenho 3 meninos, essa é a quarta.
Eu: fiquei sem fala nessa hora, engasguei, nada saía. Acho que fiz esta cara

E a pergunta que eu não deixei escapar porque pensei que poderia ser o mais sensato foi essa:
QUER DIZER ENTÃO QUE VC ACHA MAIS FÁCIL FICAR COLOCANDO FILHOS NO MUNDO, NUMA FAMÍLIA QUE, PELO VISTO VIVE DO BÁSICO DO BÁSICO, DO QUE CONSEGUIR "MIL E QUINHENTOS CONTOS" PARA FAZER UM BENDITA CIRURGIA PARA FECHAR A FÁBRICA DE FILHOTES???!!!!!! (Na minha mente ela fica gritando mesmo)
Eu: Olha vou lá então fazer as compras porque o tempo tá correndo, felicidades aí pra vc e sua big family! (Nessa hora, eu muito apática e pedindo para o mundo parar para que eu pudesse descer, saí com minha cestinha pesada em busca do Tchuco que ouviu estarrecido a história e me respondeu:
Tchuco: Não liga não, aposto que o mais fácil mesmo é esse povo fazer o filhotinho e é só nisso que eles pensam no final das contas, na gostosura de "se fazer" os filhotinhos.
No final das contas eu penso o seguinte:
"Nossa responsabilidade para com nossos filhos começam no momento em que eles ainda estão nos testículos do papai".

sábado, 27 de fevereiro de 2010


"Todos querem o perfume das flores, mas poucos sujam as suas mãos para cultivá-las". Augusto Cury

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Oh! My God!

Algumas pessoas que, algum dia, porventura venham a se interessar por este blog, talvez venham a se perguntar, "afinal de contas, qual é a desse blog? É um blog religioso? E eu respondo: NÃO! Este não é um blog religioso e sim, um blog de livre opinião. E talvez se perguntem também "será que a blogueira é tão religiosa assim?" Acredito que também NÃO! Só vou à missa aos domingos e já disfarcei e saí no meio da missa por achar que a pregação estava demasiadamente desinterssante naquele momento.
Então porque algumas vezes eu posto neste blog algum texto de autoria de algum padre ou líder religioso? Porque para mim, estes não são só sacerdotes que conduzem uma celebração, mas seres humanos iluminados, que trazem consigo o dom da palavra, são formadores de opinião e de opinião muito boa!
Realmente não sou, nunca fui e penso que nunca serei uma "religiosa fervorosa e exemplar", daquelas que leem a Bíblia constantemente (aliás, quase nunca a li, a não ser pelos Salmos, que acho que nos ajudam a conversar com Deus quando não sabemos o que dizer), que passam os dias na igreja ou como outros "religiosos exemplares" ou "fervorosos" que se julgam melhores do que outras pessoas que não frequentam igreja nenhuma ou que frequentam outra igreja, ou que possuem outra religião.
Aliás, a respeito desta última consideração, na minha opinião, a religião que uma pessoa segue, seja ela católica, evangélica, espírita, umbanda, budismo etc e tal, não a torna melhor nem pior do que ninguém. O segredo não é o que se aprende, mas o que se faz com o que se aprende. Quantas vezes já ouvimos ou lemos alguma coisa a respeito de barbáries praticadas, ao longo do tempo, por alguns religiosos, algumas vezes até em nome da religião ou em nome de Deus, como dizem alguns? Cruz credo! Já viram tamanho absurdo? Ainda usam o nome de Deus pra mascarar suas maldades! Mas não podemos nos equecer que estas barbáries não acontecem somente num segmento religioso, já aconteceram em vários e podem continuar acontecendo, porque a crueldade que o ser humano pode vir a praticar,não está ligada à sua crença e sim ao grau de maldade que pode vir a existir em cada um.
Pelo que tenho presenciado por aí, várias pessoas que batem no peito e se dizem religiosas também se colocam no direito de julgar as pessoas, de rotulá-las e por aí vai, resultando numa infinidade de ofensas, discórdias e barbaridades que se eu fosse citar aqui, ocupariam o blog todo... Sem contar aquelas outras pessoas (já passei por isto) que olham a gente sempre de um jeito meio atravessado e basta virem a gente uma vez só na igreja, para abrirem um largo sorriso e começarem a dizer que a gente se regenerou. REGENERADO DE QUÊ?!!! Me regenerando do que "eles" acham que está errado?
Então leitores, se julgar, rotular, ter preconceito e me sentir no direito de me colocar num patamar "elevado" é ser um religioso, eu não sou!
Fui criada no catolicismo, para seguir fielmente seus preceitos, para seguir suas idéias e determinações e para temer a Deus. Mas prefiro seguir meu coração e pensar que Deus existe em cada um de nós, bastando que o deixemos à frente de nossos sentimentos. Sentimentos estes, que se guiados por Ele, só podem ser bons, sem a tal da rotulação, da perseguição por aquele que é diferente de mim...
Eu ainda frequento a igreja católica e gosto de algumas celebrações que acontecem por lá, acredito mais do que tudo em DEUS e pretendo batizar meu filho se algum dia eu tiver a coragem de parir alguém. Gosto de ir à missa, principalmente quando ao invés de só um padre, temos lá na frente um líder, um professor que nos ensina a viver a vida da forma mais simples e solidária possível, aceitando aos outros como eles podem ou querem ser.
Por isso eventuais leitores, de vez em quando eu posto aqui alguma coisa escrita por padres ou outros líderes religiosos que consigam influenciar a vida das pessoas de forma positiva, mas não positiva individualmente e sim no coletivo, influenciando ações que possam ser realmente e grandiosamente boas para a humanidade, para um mundo melhor! (Sou uma pamonha sonhadora mesmo...)
Ah! E pra finalizar, não temo a Deus como me ensinaram que eu deveria, pois penso que se tememos algo ou alguém, é porque trata-se de algo não muito bom. E pelo contrário, Deus é bom, por isso nos criou, talvez por ser também um sonhador como eu... E por isso, eu não O temo, mas O admiro, O respeito e acredito Nele.
Pensem nisso!

domingo, 3 de janeiro de 2010

Um pouco de Frei Marcos


Sou misteriosamente amado!
Frei Marcos Matsubara, OCD

Nasci em uma família de imigrantes japoneses budistas. Para dizer a verdade, budista pra valer era só a minha mãe, os outros iam no “vai da valsa”. Minha mãe rezava todos os dias, pela manhã e à noite, com a disciplina kamikaze típica dos orientais. Tantas vezes eu a vi adormecer diante do oratório, extenuada pelos trabalhos domésticos, recitando infinitas vezes o mesmo e hipnótico mantra (acho que era algo como “Namyo Hô ren Guekyo” ou qualquer coisa parecida). Não havia espaço para qualquer tipo de criatividade naquelas orações. Era uma prece repetitiva, insistente, monótona, cadenciada, imutável (lembra as orações do terço e as ladainhas que o povo reza).

Minha mãe recitava algo numa linguagem misteriosa, num japonês que eu não entendia e que mais parecia um lamento, entrecortado apenas pelo som metálico de um pequeno sino. A coreografia da oração ficava completa com o barulhinho ritmado de um instrumento que se assemelha a um terço feito de contas de madeira, que minha mãe esfregava com fervor entre as mãos. Tudo isso acompanhado pelo perfume do incenso japonês (mais suave que o indiano), velas e frutas depositadas cuidadosamente no oratório. Certamente foi dela que herdei o gosto pela oração.

Mas, estranhamente, não me interessei pelo budismo. Desde de pequeno eu resisti aos ensinamentos de minha mãe. Quando me perguntam acerca da doutrina budista eu simplesmente digo que não sei responder porque nunca fui budista e, portanto, não estou capacitado para esclarecer dúvidas sobre esta religião. Costumo brincar dizendo que minha mãe era da “Legião de Maria do budismo” ou do “Apostolado da Oração budista”, só faltava a fita vermelha no pescoço. Ela foi a responsável direta pela conversão de várias pessoas à sua religião, era uma espécie de catequista.

Devo ter sido uma grande decepção para ela. Quando eu tinha 6 anos olhei nos seus olhos e disparei uma pergunta surpreendente: “Mãe você deixa eu ser católico?” É claro que ela disse não! Perguntou-me se eu sabia o que significava aquilo eu respondi que sim. Na minha cabeça de menino, a Igreja Católica era uma espécie de clube onde as pessoas se reuniam para cantar, rezar e comer um “biscoitinho” que só era dado aos adultos. Sabia também que na Igreja do bairro (Nossa Senhora do Carmo – Santos/SP) havia uma estátua de um barbudo e cabeludo sagrando na face. Disseram-me que era Deus, mas eu tinha medo dele. Aquela figura coberta de sangue com cabelos embaraçados carregando uma cruz (devia ser o Senhor dos Passos) era assustadora.

A partir dos 7 anos, em 1969, comecei a freqüentar a escola primária. Gostava muito das aulas de religião que eram opcionais, mas eu participava sem que minha mãe soubesse. Minha primeira professora (Dona Beatriz Alonso) foi quem começou a contar histórias da Bíblia. Lembro da Sarça Ardente, do juízo de Salomão, de Adão e Eva, das Bodas de Caná... eu adorava aquelas histórias e gostava mais ainda quando a professora pedia para reproduzir a história em forma de desenhos. Naquela época eu “morria de inveja” quando meus primos e amigos diziam que estavam freqüentando o catecismo na Paróquia. Queria saber o que eles estavam aprendendo e cantar aquelas músicas que só eles sabiam (louvando Maria, Senhor vos ofertamos...) Ah, meu Deus do céu! O que eu não daria para saber cantar aquelas palavras, mesmo sem saber o que significavam. Jurei que quando completasse 18 anos – símbolo da maturidade – iria até a Igreja pedir o batismo.

Mas veio a adolescência, mudei de cidade e deixei de lado o interesse pela Igreja. Como todos os adolescentes da minha época, comecei a me interessar pelas festas. Foi a minha geração que descobriu e conheceu o “boom” das discotecas: o luzir frenético dos estroboscópios, os canhões de luzes coloridas, a música ensurdecedora dos cantores americanos e os passos previamente ensaiados em grupos (como o hustle) e roupas super coloridas, além dos cabelos estrategicamente compridos para provocar os mais velhos.

Quando completei 18 anos meu pai faleceu. Era um homem especial. Foi ele que me ensinou valores inestimáveis como por exemplo: o senso da justiça, verdade, responsabilidade, honestidade e trabalho. A sua ausência causou um irreparável prejuízo em minha família. Nunca esquecerei quando ele me ajudou a fazer a minha primeira árvore de Natal. Minha mãe não gostou muito da idéia. Disse que aquilo era um símbolo cristão e nós não éramos cristãos. Eu insisti e consegui convencê-la a pedir para que meu pai comprasse o material necessário. Eu era menino, devia ter uns 10 anos, mas nunca me esqueci daquela árvore de galho seco, pintada de prata, com algodão, lanterninhas de papel dourado e origamis que minha mãe ensinou. Custei a superar a ausência dele.

Logo depois que meu pai faleceu, fui a uma Igreja e pedi o batismo. Depois de alguns meses de preparação, o meu catequista (que hoje é meu padrinho) perguntou se eu queria ser batizado na Vigília da Páscoa. Foi um privilégio ser batizado no Sábado Santo. A partir disso fui deixando de lado a turma de amigos e me dedicando ao apostolado da Igreja: grupos de jovens (JUFRA), promoção humana, liturgia, oração.

Novos amigos, novos interesses, novas perspectivas. Uma dúvida começou a me incomodar: será que aquilo que eu sentia não era um apelo vocacional? Minha mãe reclamava que eu não parava mais em casa, só vivia fazendo coisas para a Igreja e não tinha tempo para dar atenção a ela e meus irmãos. Quando decidi contá-la que eu ia entrar no Seminário dos Padres Canossianos, quase não consegui dizer a notícia. Sabia que ia causar uma tristeza profunda e uma decepção imensa. Ela ouviu minha decisão e ficou em silêncio. Segurou firme as lágrimas, respirou fundo e disse sorrindo para não chorar: “Mas não dá pra ser católico sem ser padre? Não é suficiente ser católico?”.

Eu abaixei a cabeça e disse que já estava decidido. No prazo de um mês eu deixaria minha família. Precisava apenas cumprir as obrigações no local onde trabalhava, o mês do aviso prévio e providenciar algumas coisas para o ingresso no Seminário.

Quando chegou o dia da viagem ela preparou cuidadosamente o almoço para que eu me alimentasse bem antes da jornada. Pediu-me desculpas por não ter feito coisa melhor, o dinheiro estava curto. Eu entendia. Sempre fomos pobres e sabia que ela estava fazendo o melhor que podia. Saímos de casa em silêncio. Eu segurava uma sacola e um violão, ela carregava uma mochila. Quando chegou o ônibus ela me disse: “Toma cuidado! Cuide-se bem, você é muito frágil!”.

Ela tinha razão. Sou mesmo muito frágil. Tão frágil que Deus sempre me cercou de pessoas generosas para que me amparassem nos momentos críticos.

De lá para cá passaram 16 anos. Minha mãe morreu, hoje sou Carmelita Descalço e algumas pequenas gentilezas de Deus preanunciavam esta minha vocação carmelitana.

- Nasci na Paróquia Nossa Senhora do Carmo, na Ponta da Praia, em Santos/SP.

- Como não conseguiam lembrar do nome de minha mãe (Fujiko) as vizinhas apelidaram-na de Teresa.

- O primeiro religioso que conheci era um carmelita: Frei Nuno.

Nunca entendi direito porque Deus me chamou à vida religiosa. Este é um privilégio que parecia impossível e não estava nos meu planos, nem nos da minha família. Tudo é um mistério, como é próprio de Deus. Tudo isso é surpreendente, inesperado, ilógico, estranho, inexplicável e mesmo assim ele tem me suportado esses anos todos neste caminho. Sou misteriosamente muito privilegiado.

Fonte: http://www.comshalom.org/formacao/exibir.php?form_id=1073

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Yoga e Fé


Texto de Padre Zezinho

Muita gente me pergunta se um cristão pode praticar Yoga, pois inadvertidamente identifica a prática com religião ou filosofia estranha. Dou meu depoimento como padre católico. Aprendi o Yoga em um tempo em que precisei de maneira especial dessa disciplina para superar extrema tensão e cansaço. As leituras dos livros do professor Hermógenes, a quem mais tarde conheci e a quem muito prezo, foram, sem sombra de dúvida, um caminho que até hoje me devolve o controle em situações difíceis. Em nenhum momento, ninguém, nem livro algum me influenciaram negativamente ou desviou minha fé em Jesus e na minha Igreja. Só cresci com essa disciplina.

Hoje, quando me perguntam sobre o Yoga, digo que é um conceito de vida rico de sabedoria, não importa de onde ou de quem tenha vindo, porque sei que nele está o dedo de Deus. O verdadeiro mestre de Yoga é como o verdadeiro pregador do cristianismo; oferece um caminho e respeita os passos e a direção de quem o ouve. Se alguma vez o Yoga influenciou algum cristão, imagino que não tenha sido para o erro. A pessoa provavelmente já estava confusa. Yoga e cristianismo são duas disciplinas que só me fizeram bem. Continuo pregador sereno e fiel à minha Igreja e tudo o que li e aprendi jamais me levou ao conflito. Fiz minhas escolhas como S. Paulo, que soube aprender e até elogiar outras culturas.

Cristãos serenos aprendem com a serenidade dos outros. Os menos serenos procuram com lente de aumento os defeitos dos outros e fazem de tudo para não aprender. Gostam muito de ensinar, mas negam-se a aprender. E isso não deixa de ser um tipo de fanatismo. Nunca tive dificuldade em assimilar o que é bom de todas as filosofias e práticas de outros povos. Nunca foi preciso fazer concessões à minha fé em Jesus.

Quando alguns católicos me perguntam se podem praticar Yoga, pergunto se alguma vez já jogaram futebol ou fizeram ginástica. Respondem que sim. Assimilaram essas atividades e nem por isso deixaram de ser cristãos. Lembro que o Yoga tem conceitos vindos de outras culturas, mas que podemos tranqüilamente adaptar ao nosso modo cristão de ver a vida. O cristianismo tem muito a ensinar, mas tem muito aprender com outras culturas. Ser evangelizado subentende isso. Saber elogiar as flores dos outros e até plantá-las no próprio jardim. O Yoga é uma dessas riquezas que faze bem, quando a cabeça é boa e o coração sereno.

O mundo está cheio de gente sábia. O professor Hermógenes e seus amigos sabem o quanto eu respeito a sua sabedoria. O mundo teria mais saúde física e mental se os ouvisse.

Que Deus os ilumine!